Recebi um e-mail do amigo, Augusto Azevedo, ainda sobre o jogo do último sábado América 1 x 0 ABC. Augusto é daqueles abecedistas que sempre tem no clássico rei um campeonato à parte, aliás, creio que todo torcedor, seja abecedista ou americano, tem o mesmo pensamento, afinal, ninguém gosta de perder para seu maior rival. O gosto da derrota é amargo amigo, porém, lembre-se que daqui a quatro meses teremos outro ABC x América. Portanto, levanta, sacode a poeira, e dá a volta por cima. 
Lamentos, lamúrias não podem dar o recheio destas palavras. Muito menos, provocações desarrazoadas a quem quer que seja. Antes pelo contrário. Talvez, queira eu catalisar o sentimento de tantos e quantos viveram um dia surreal. Um sábado atípico. Mas, aos vencedores os louros da vitória. Aos perdedores... “Aos perdedores”!? Que perdedores, indagamos todos.
Sábado foi um daqueles dias em que os deuses do futebol perdem o controle de suas ações, ou, simplesmente, adormecem no momento crucial, deixando os “sobrenaturais” aparecerem. Este último sábado não foi um sábado normal.
A tela da pintura estava no cavalete para ser traçada, num atelier misto, cujas instalações podem ter sido utilizadas pela última vez. Artistas alvinegros começaram a rabiscar, de maneira firme, a obra que imortalizaria-se em um possível último ato. Parte da platéia, emoldurando o tracejado, vibrava loucamente com o desenvolver da obra, colorindo o ambiente com o preto, a cor hegemônica que reúne todas as cores, e com o branco, símbolo da ternura e da paz. Outra parte, atônita com a obra que se desenrolava à sua frente, silenciava preocupada. Mas, aquele não era um sábado comum.
Comandando a feitura da obra, observando a tela, de maneira sempre ativa e altiva, apesar do seu pequeno tamanho, o mestre Arthur, a orientar seus artistas, injetando a confiança que somente os que são enormes no conhecimento podem fazê-lo.
Até quando a tinta teimou em borrar a tela, com um Ivan batendo no pincel de maneira absolutamente passional, como só os amantes são capazes de assim proceder, o grupo de artesãos, superando a tudo e a todos, voltou a desenvolver o desenho em sua melhor concepção.
Uns, artistas mais racionais, como Erandis, davam a tonalidade da sobriedade e da classe. Outros, como Leonardos, Gaúchos, Fabianos, inebriados da valentia dos guerreiros, davam a cor da austeridade e da raça, fazendo respingar suor nos pinceis. E, do menor dos artistas, com uma essência oriunda desta terra de Poti, um pequeno João Paulo pôs os contornos definidores das grandes obras, com a magia, a técnica e a gana que só os grandes artistas possuem. Mas, aquele era um sábado diferente, amuado.
E como aquele, realmente, não era um sábado normal, um intruso, que assistiu assombrado a toda construção da obra, num único momento de desatenção dos artistas, interpôs-se entre eles e assinou a obra que não era sua, deixando em todos da platéia a sensação de que a segurança do atelier havia negligenciado, e os deuses, cochilando, vindo a abandonar os que, de fato, mereciam o prêmio final.
Mas, como nos concertos inesquecíveis, ao final, a platéia aplaudiu de pé os verdadeiros artistas do espetáculo, premiando-os com o reconhecimento e a certeza de que a exposição completa ainda está por vir, e será de alto nível.
Natal/RN, 21 de junho de 2009.
Augusto Flávio de Araújo Azevedo (Conselheiro ABC F.C.)


